Estabilidade de juro e câmbio desafia tesourarias

09.01.2013

Por Alessandra Bellotto e Flavia Lima | De São Paulo Fazer dinheiro nas tesourarias dos bancos neste ano não será mamão com açúcar. Ao menos se se cumprirem os desígnios do Banco Central, que foi além de sinalizar e disse com todas as letras que a taxa básica de juros ficará numa tediosa estabilidade por […]

Por Alessandra Bellotto e Flavia Lima | De São Paulo

Fazer dinheiro nas tesourarias dos bancos neste ano não será mamão com açúcar. Ao menos se se cumprirem os desígnios do Banco Central, que foi além de sinalizar e disse com todas as letras que a taxa básica de juros ficará numa tediosa estabilidade por um bom tempo. Da mesma forma que a autoridade colocou um freio no mercado de câmbio, que flertava com um maior grau de volatilidade em dezembro, e indicou que não vai deixar o dólar se valorizar mais.

Esse cenário de estabilidade dos preços dos dois ativos surge em contraposição a um ano de 2012 marcado por um profundo corte na taxa Selic e forte valorização do dólar, movimentos largos, que propiciaram bons ganhos àquelas tesourarias e fundos hedge que acertaram a mão em suas apostas.

Muitos daqueles que cuidam do caixa dos bancos agora tentam minimizar o horizonte mais desafiador, mas a verdade é que será preciso mais esforço para fazer dinheiro em 2013, como admitem executivos ouvidos pelo Valor. Nesse novo cenário, a percepção é que será preciso explorar com um bom timing movimentos de curtíssimo prazo, além de alongar o prazo dos títulos que compõem as carteiras, estratégia que os tesoureiros não costumam apreciar, mas à qual alguns já se renderam.

"As tesourarias vão ter de assumir mais risco e trabalhar com um pouco mais de prazo se quiserem turbinar ganhos em 2013, mas sempre com proteção", diz Carlos Eduardo Rocha, sócio do banco Brasil Plural, cujos recursos proprietários são geridos via fundo. "A arte é saber gerenciar os riscos".

O cenário para o Brasil é complexo, de contradições entre atividade fraca e pressão de preços, mas o governo pode olhar para o baixo crescimento e seguir derrubando o juro, apesar da inflação, acredita Carlos Woelz, ex-tesoureiro e sócio-gestor da Kapitalo Investimentos, gestora especializada em fundos hedge.

Na Modal Asset, responsável pela administração dos recursos proprietários do banco num fundo multimercado, a estratégia para a renda fixa será aproveitar a volatilidade do mercado de juro futuro, já que não se espera uma redução grande de taxa como ocorreu em 2012, afirma Luiz Eduardo Portella, sócio-gestor. "Não vamos ter um mercado de grandes tendências, mas teremos muita oportunidade de curto prazo".

Segundo Portella, com atividade fraca e inflação alta, o mercado fica muito sensível aos indicadores, o que abre espaço para operar a agenda econômica, ora apostando na elevação das taxas no mercado futuro, ora apostando na redução, dependendo do dado. "Na renda fixa, serão ganhos menores de curto prazo", resume.

"Muitos acham que os mercados vão ser de pouca volatilidade, mas eu acredito que ainda existe espaço para o governo cortar juros", diz executivo de um grande banco que prefere não ser identificada. Segundo esse executivo, diante do nível de atividade atual, com crescimento inferior a 1% ao ano, algo deve ser feito pelo governo por meio de incentivos fiscais para mais alguns setores ou por meio de cortes de juros, que viriam já no primeiro semestre do ano. "Apostamos mais em um mix dos dois cenários". Essa fonte considera alguns cortes de 25 pontos-base para a Selic, num total não maior do que 100 pontos-base.

A visão estratégica de Luis Mendes, tesoureiro e diretor-executivo de mercados globais do Deutsche Bank, contempla três cortes de 25 pontos bases na taxa Selic, iniciando na reunião de março de 2013. "A curva de juros embute uma probabilidade baixa de corte. Logo, a nossa estratégia preferida ainda é a de manter uma posição aplicada na parte mais curta da curva, até julho de 2014", diz Mendes, que prevê a Selic em 6,5% em 2013.

Segundo Mendes, nos primeiros meses de 2013, o mercado de juros guarda as maiores chances de ganhos e, posteriormente, o de câmbio. "Ao fazer o orçamento de 2013, esperamos que as áreas de juros e câmbio tenham resultados parecidos", diz.

Para capturar esse mesmo cenário, Woelz, da Kapitalo, aposta na redução das taxas de juro, só que dos contratos futuros com vencimentos ainda mais curtos, como o de julho de 2013. E, como o gestor espera de recuperação ainda que gradual da economia local, ele está entre os que não descartam um aumento mais para frente do juro básico para controlar a inflação. Nesse caso, as apostas são de alta na parte mais longa da curva, a partir de janeiro de 2014.

Movimentos oportunistas também são esperados no câmbio, onde ações táticas e de curtíssimo prazo tendem a ganhar ainda mais relevância. "Esse é um mercado mais engessado", afirma Rocha, do Brasil Plural. Para Portella, da Modal, a cotação de R$ 2,10 virou teto para a moeda americana e uma oportunidade para montar posição vendida, apostando na queda.

"Está com cara de que a gente tende a ver mais estabilidade no câmbio", diz João Scandiuzzi, estrategista-chefe da área de Asset Management do BTG Pactual. Para ele, o governo desautorizou qualquer leitura de que talvez gostasse de ver um câmbio ainda mais depreciado como forma de estimular a economia. "Estabilidade é o que o governo gostaria de ver nesse momento e eles têm uma influência enorme sobre o mercado", afirma o estrategista, ao ressaltar que a previsão é de um dólar entre R$ 2 e R$ 2,10 no próximo ano.

Também para Woelz, da Kapitalo, mesmo sendo cada vez mais difícil entender a lógica das intervenções do governo no câmbio, a trajetória está mais para estabilidade. Também a gestora montou posições vendidas em dólar a R$ 2,10. "Se subir acima disso, zero."

Mendes, do Deutsche, avalia que o câmbio tem a sua volatilidade reduzida por conta das intervenções do BC, mas isso não quer dizer que ele não oscilará em 2013. "Em 2012, entre a cotação mínima e máxima, foram mais de 20%, mesmo com um BC atuante. Isso não é pouco." Ainda segundo o tesoureiro do Deutsche, o mercado de câmbio vai depender muito do panorama externo, que a seu ver pode ser na margem mais benigno. Nesse cenário, moedas de países emergentes e commodities se beneficiam, incluindo o real. "A questão passaria a ser: o Banco Central vai deixar? Se a inflação não estiver convergindo para a meta na velocidade esperada, um real ligeiramente mais forte pode ser um bom aliado. Acreditamos em câmbio em R$ 2,05".

Há, no entanto, quem monte suas posições com base em cenário divergente. "Acho que nós podemos ver esse dólar ir mais próximo de R$ 2,30 do que caindo para perto de R$ 2", diz o tesoureiro de grande banco que optou por não ser identificado. "Acho que o governo vai continuar nessa política de tentar desvalorizar um pouco mais o real, o que traria um benefício um pouco maior para os exportadores. E R$ 2,25 a R$ 2,30 ainda é um nível confortável, sem grandes impactos sobre a inflação."

Se o governo sinaliza diferente? Sim, afirma o mesmo executivo. Mas é a comunicação errática do regulador com o mercado que acaba abrindo interrogações e oportunidades no mercado de câmbio e também no de juro.

Fonte: Valor Econômico

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